magnetismo animal, para o bem e para o mal
1)
Fui deitar, claro
Fui deitar (como dizia a minha avó Ermelinda)... e escolhi a hora de almoço para não ter bicha na secção de voto.
Tudo a correr bem na escola do Bocage... quase ninguém para se rir das piadas dele.
Secção 21, aqui vou eu; vazio na entrada do edifício, siga!
Mas na entrada da sala está uma menina/mulher! Tenho que esperar, mesmo atrás dela. Não é de Ermesinde porque estamos no Puârtu mas pode ter lá família (calma tarado que isto não é o metro em Tóquio).
De repente, sou acordado destas meditações anatómicas pelas vozes vindas da mesa de voto:
- Venha, venha!
E então a bela donzela levanta a cabeça e diz:
- Desculpe...
Ou seja, já tinha votado mas achou por bem parar na entrada da sala para arrumar a carteira ou lá o que era...
Já tinha deitado mas não chegou e agora queria mesmo ser eleita para uma votação à maneira!
OK, OK venho já e aqui há umas boas salas de aulas... hu hu!
2)
Fui descontar, ontem
Tinha um talão de 10% de desconto numa marca com cada vez menos espaços de venda... e uma gama de produtos em vias de extinção. A ausência, obsolescência e urgência passavam de meros conceitos para ditames.
Escolhi um local chamado Guardeiras para destino da missão.
Loja praticamente vazia... está a correr bem; como os produtos de vestuário geral ficavam aquém dos meus exigentes critérios de simplicidade e minimalismo tive que concluir:
Lá vou ter que gastar 25,00€ mínimo em cuecas!
Resolvida essa questão voltei a ter consciência do ambiente circundante e ao escaparate de roupa interior masculina chegavam primeiro estridentes vozes femininas e depois os respetivos centros emissores em forma de rotundos corpos! Quase fui atropelado na sua busca de cuecas, boxers e afins.
E não paravam de tagarelar/vociferar... mas para quem escolheriam tão apropriado presente? Reparei depois que afinal não estavam só as duas amigas... um velhinho com metade do tamanho delas seguia-as como uma criança (ou talvez mais comportadamente que um pirralho). Não parecia muito interessado no produto íntimo em exposição preferindo olhar a toda a volta com um esgar cínico... como que a verificar o resultado das atuações das queridas baleias! E fixou-se em mim detetando com evidente deleite a minha irritação! E não parava de olhar... e fazer aquela careta de troça... lembram-se daquele velhote pequenino que aparecia nos programas do Benny Hill e levava sempre umas palmadas na cabeça? Bem, era como ele mas tinha cabelo.
Lancei-me para caixa; só estava uma senhora à frente (e uma só caixeira também). Mas era daquelas clientes sempre cheia de perguntas:
- Não trouxe o cartão X. Posso ter o desconto Y? Sei o nº de telefone. Tenho a app etc.
Isto é como no trânsito: podemos ter engarrafamentos enormes e prolongados devido ao número de carros e semáforos desregulados como na Praça da Galiza, no Porto, mas também podemos ter problemas porque apenas um ou dois carros conduzidos por bestas conseguem provocar o caos.
Entretanto as baleias (seguidas pelo velho do Benny Hill, tal como nos casamentos vão no fim as meninas a segurar o vestido) dirigem-se para a caixa e em vez de fazer fila a seguir a mim colocam-se ao lado da cliente das perguntas! Claro tinham que ser todas amigas mas isso não significa que já estivessem antes na caixa... E o irritante do velho minúsculo sempre a olhar para mim com ar todo contente!
Estava prestes a explodir! Viro-me para trás e aparece uma mulher mais nova com aparente intenção de pagar... vai parar na fila e vou desabafar e ver como ela reage a esta brincadeira. Não estava nos meus dias... no último momento desvia-se da fila e vai ter com as malucas ao balcão (mais uma amiga, ou seria a filha)
No balcão as vozes sobrepunham-se: as baleias discutiam entre si quem ia pagar o quê e se era presente ou não e de quem: a cliente número 1 - digamos assim - esgotou as perguntas e a muito custo apresentou um cartão e pagou... depois havia a questão dos sacos e se queria que fechasse... isto significava uma sessão de agrafadelas no topo dos mesmos.
A minha respiração ficava mais ruidosa, as caretas do velho mais retorcidas... e finalmente a cliente 1 e a suposta filha saíram e foi a vez da cliente baleia 2 fazer o seu cerimonial e depois seria a nº 3.
Até que a cliente 1 que ficou pelas redondezas teve um momento de lucidez e achou que seria a minha vez e isso comentou com as coleguinhas. Estas nem se dignaram virar a cara fartas que estavam de saber das habilidades feitas tão deliberadamente!
Ainda esbocei um grunhido para o velho que estava cada vez mais perto e mais jocoso mas depois parei... tratei de pagar e pelo ar tranquilo da empregada deduzi que para ela isto era normal... não valia a pena desabafos.
Aliás a preocupação dela era bem diferente: depois de lhe entregar o talão de desconto fez o que achou necessário e ia deitar logo o papelito para o lixo... depois lembrou-se:
- É melhor guardá-lo para ver se funciona quando sair o recibo!
Quem era eu para discordar de tão atempado raciocínio.
Finalmente saí da loja com um saco cheio de cuecas pagas a 90% do preço de tabela; noutras circunstâncias, noutro universo ou planeta, noutra época histórica isso seria de comemorar com exuberância... ali e na altura era apenas uma sucessão de gestos mecânicos... pé direito agora pé esquerdo etc... estás a caminhar para o resto da tua vida.
Fora da loja estava a cliente 1 (e filha) e ouvi-a esboçar algo como...
- Está a ver, já está!
... mas segui sem pestanejar e só depois realizei algo que tinha perturbado a minha referida sucessão robotizada de passos para fora da loja: as baleias e o velho continuavam dentro da loja, noutra secção... provavelmente à espera da próxima vítima!
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The fLIPADOS Team
8fev26
Espectacular!
ReplyDeleteObrigado menina Pré
DeleteDeduzo que comigo não voltas a fazer compras...